No dia 15 de outubro de 2022, aproximadamente 383 pessoas, entre pastores, seminaristas e trabalhadores voluntários, participaram do Encontro sobre Acessibilidade ocorrido no Maanaim Florianópolis.
A acessibilidade na Palavra de Deus
Na primeira aula, ministrada pelo pastor Lucimar Bízio, de São Paulo, foi lido o texto da Palavra de Deus que está em II Samuel 9:7, que diz:
“E disse-lhe Davi: Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência por amor de Jônatas, teu pai, e te restituirei todas as terras de Saul, teu pai, e tu de contínuo comerás pão à minha mesa”.
O pastor menciona que a Bíblia não poderia deixar de falar sobre a acessibilidade, citando o exemplo de Mefibosete. As palavras do rei a Mefibosete foram “não temas”, “usarei contigo de beneficência” e ainda disse “de contínuo comerás pão à minha mesa”.
Muitas pessoas acreditam que seus os filhos são especiais devido a um castigo de Deus, mas a Palavra de Deus nos mostra que não, em João 9:3:
“Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus”.
Certamente Davi precisou adaptar a sua casa para melhor atender Mefibosete. Assim como o rei olhou para ele com misericórdia, Deus deseja usar cada um com uma função, para que o nome Dele seja glorificado.
Devemos ajudar todos a terem acesso à Palavra de Deus e, quando necessário, devemos promover a acessibilidade, adaptando o ensino.
A Acessibilidade na igreja
A aula da Doutora Maria Amin, de Belo Horizonte, mostrou um pouco do histórico dos trabalhos com a acessibilidade na Igreja Cristã Maranata. Este trabalho teve início na igreja de Montese, em Fortaleza, no ano de 1997, com a assistência ao surdo. Em 2005, após uma reunião, os trabalhos passaram a ser realizados em diversas outras igrejas por todo o Brasil e exterior. Em 2011, iniciaram a assistência aos irmãos surdocegos; e em 2019, após uma reunião em Domingos Martins, o trabalho foi instituído para as demais necessidades de acessibilidade.
A acessibilidade é importante para tornar o ambiente acolhedor na igreja. Um dos eixos dos trabalhados na igreja é o atitudinal, ou seja, a atitude. A igreja que sabe como tratar a pessoa que necessita de acessibilidade, está testemunhado a ponto de alcançar a salvação. Devemos ter respeito e amor, jamais “pena”. O objetivo deste trabalho não é apresentar a cura, mesmo sabendo que o nosso Deus tem poder para curar.
São exemplos de atitudes: sentar para conversar com um cadeirante, para ficar na mesma altura; conversar com um deficiente visual olhando para ele; se o deficiente visual estiver com o cão guia não devemos ficar olhando ou brincando com o animal; também devemos nos aproximar no lado contrário ao do cão; entre outros.
Também devemos ter cuidado para não passar na frente de duas pessoas se comunicando por Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas caso seja necessário, devemos passar rapidamente. Nas igrejas devemos ter o cuidado de achar um bom lugar para o surdo, para ele poder visualizar o intérprete.
Outro eixo da acessibilidade trabalhado na igreja é o comunicacional, ou seja, voltado à comunicação. A igreja já dispõe de muitos materiais adaptados que auxiliam nessa comunicação, como a coletânea de louvores com letras ampliadas, em Braile, em áudio cifras e também a audiodescrição, que pode ser feita em até três níveis. Devemos lembrar que nem todo o deficiente visual gosta de audiodescrição, por isso é importante perguntar se a pessoa quer e em qual nível, quer.
O objetivo deste trabalho é a salvação, por isso esse trabalho busca dar acessibilidade ao ensino da Palavra, oferecer a mesma oportunidade de aprender a Palavra de Deus.
No trabalho com as CIAs (Crianças, Intermediários e Adolescentes) devemos verificar se a criança necessita de uma classe específica, uma professora mediadora ou pode participar com a turma, ou seja, devemos verificar se é necessário muito ou pouco apoio. Aos deficientes auditivos é importante a aula em Libras. O objetivo não é a exclusão, mas sim dar o entendimento da Palavra de Deus, pois às vezes ele pode estar junto com a turma, mas não estar entendendo o ensino. A criança vai estar na classe de acordo com a sua idade, deve ser promovida normalmente.
O estudo é o mesmo, mudando somente a forma de ensinar. Devemos saber qual é a dificuldade da criança, observando o potencial, comportamento e tempo de atenção.
Acessibilidade no culto
A irmã Mirian Rezuski, pesquisadora de metodologias inclusivas – Fiocruz, no Rio de Janeiro, mencionou os cuidados que devemos ter no acolhimento de pessoas com comportamentos atípicos, ou diferenciados, como, por exemplo, as crianças diagnosticadas com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou outros transtornos.
É necessário evitar pré julgamentos, “pois entender as dificuldades é o primeiro passo para promover a inclusão e tornar possível a acessibilidade na igreja.” Quando o comportamento de agitação e inquietação é percebido em algumas crianças, devemos estar preparados para acalmá-las.
Devemos buscar os materiais adaptados para ela poder assimilar o conhecimento da Palavra de Deus. Muitas vezes é necessário o apoio da família, que deve levar as crianças, mesmo com as dificuldades, para que eles também possam entender o ensino da Palavra de Deus. Os professores, por sua vez, devem acolher e promover o ensino com acessibilidade, gerando o interesse da criança aprender.
“Em verdade, em verdade vos digo, quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou.” João 13:20
A irmã Gilmara Orico, que é fisioterapeuta em São Paulo, mencionou que há uma cartilha para auxiliar as professoras das CIAs a acolherem todas as crianças, assim como o Senhor nos acolheu. Na sua aula foi lido o Texto da Palavra de deus que está em Provérbios 22:6, que diz: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele.”
Esse trabalho tem o objetivo de preparar as professoras, pais e toda a igreja para lidarem com as pessoas que precisam de acessibilidade.
Acolhimento de pessoas com deficiência
Pastor José Nascimento, de Belo Horizonte, iniciou o texto da Palavra de Deus em Marcos 2:4-5, que diz:
“E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico. E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados”.
O pastor menciona que no texto acima, os amigos certamente estavam em busca de uma cura física, mas isso não é o mais importante. O principal objetivo da obra é a salvação, e não a cura.
O pastor reforçou que todos podem ser instrumentos na obra. Disse ainda que a pessoa com deficiência não gosta de ser considerada um incapaz de realizar a obra de Deus. Todas as pessoas são capazes e ninguém deve se sentir excluído. Citou o exemplo do trabalho que está sendo feito pelo grupo de acessibilidade, pois todos os instrumentistas são deficientes visuais, uns totais outros parciais, mas todos são usados, participam da Escola Bíblica Dominical (EBD).
O pastor ainda contou a sua experiência, dizendo que é pastor há 30 anos, conseguindo fazer todas as coisas, mesmo tendo baixa visão. Em 2018 perdeu a visão e pensou que não poderia mais exercer as suas funções e essa situação o deixou triste. O pastor foi convidado a participar do Grupo de Acessibilidade, que foi uma benção na sua vida. Atualmente o pastor mencionou que faz quase tudo que os outros pastores fazem, somente precisando de auxílio para a leitura da Palavra.
Deficiência Visual
A irmã Maria Amin abordou um pouco mais sobre a deficiência visual, que pode ser total ou parcial. Explicou que se a pessoa nasce com deficiência visual ou adquire muito nova, essa pessoa não tem memória visual por isso vai precisar tocar para entender.
Mencionou o cuidado que devemos ter ao nos aproximarmos das crianças pequenas com deficiência visual, devendo sempre avisar antes de tocar. Já as crianças surdocegas, não devemos tocar, porque elas ficam apavoradas, pois, não tem antecipação visual nem do barulho. Para estas crianças o contato inicial é com os pais, e aos poucos os pais vão introduzindo as pessoas na convivência da criança. Já aquele que ficou cego mais tarde, dependendo da idade, ele vai ter mais ou menos memória, não precisa do recurso tátil.
Na deficiência visual total pode ocorrer de a luz incomodar, por isso eles usam óculos, mesmo à noite. Na deficiência parcial, ou baixa visão, dependendo da luminosidade, a pessoa enxerga mais ou menos, ou ainda pode enxergar um lado e não enxergar o outro. Até a posição da televisão para projeção pode interferir, não devendo ter inclinação.
A irmã Maria Lúcia Mansur, que é professora em Belo Horizonte, apresentou o Projeto Mundo 3D. O objetivo deste projeto é a criação de um acervo bíblico tátil. As professoras perceberam a necessidade da criação de objetos em 3D quando realizaram a audiodescrição de livros infantis, como “A arca de Noé” e “Isaque o filho da promessa”. As professoras conversaram com dois irmãos cegos, eles relataram que a “carência de material e ferramentas para o conhecimento do verdadeiro evangelho entre os deficientes visuais é imensa”.
Nas leituras dos livros as professoras descreveram as imagens de um camelo e também da arca. O surdo disse: “eu não sei o que é um camelo, eu não conheço”. Já a sua irmã disse: “eu não sei como é a arca de Noé”. A professora então realizou um relevo na folha do livro e a irmã disse que gostaria muito de saber. Diante dessa situação, as professoras clamaram ao Senhor, questionando como fariam. E a resposta da oração foi uma impressora 3D, sendo adquirida. Quando o irmão deficiente visual tocou nos objetos ele disse: “Preciso tocar em 3D para de fato conhecer o objeto”.
O Pastor Eduardo de Oliveira, também contou a sua experiência. O pastor, mencionou que ficou cego há dois anos e que em 22 anos de ministério, já ajudou tratou muitas ovelhas, mas hoje está sendo tratado. Mencionou que a igreja é um presente do Senhor, que se sentia solitário por não ver ninguém, mas agora se sente acolhido.
O Pastor José Nascimento mencionou a importância da assistência ao surdo ou cadeirante.
As adaptações das perguntas da EBD
A aula da irmã Adeliana Scuzatto, professora de Educação Especial em Nova Venécia – ES, foi on-line. O texto base da Palavra de Deus lido está em Salmos 127:3, que diz: “Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão”.
Os nossos filhos ou alunos são preciosos e nós precisamos ensinar a Palavra de Deus a eles. Para que eles também alcancem as revelações do Senhor, é preciso adaptar.
Adaptar é modificar, ajustar, adequar ou simplificar, transformando algo difícil em acessível para as CIAs, jovens, idosos ou outras deficiências. O objetivo desta adaptação é melhorar a compreensão de quem está aprendendo. Desta maneira todos terão acesso à Palavra, serão incluídos e poderão interagir. É preciso motivar as pessoas a compreenderem a Palavra de Deus.
É necessário reservar um tempo para o estudo das perguntas feitas na EBD, principalmente para ensinar os nossos filhos; a leitura deve ser pausada e dialogada; trabalhando uma questão por vez; não se deve ter pressa em terminar, mas também deve ser respeitado o limite do tempo de atenção da criança; se possível usar exemplos da realidade da criança. Devemos orar, ler a Palavra durante o ensino, mostrando a texto na Bíblia. É necessário ter paciência.
Para encerrar foi lido o texto que está em Apocalipse 22:12: “(…) o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra.”
Material adaptado
A irmã Maria Amin abordou sobre o material adaptado. Ele não tem o objetivo de modificar o ensino, a revelação, mas sim permitir a compreensão. Essa adaptação depende da capacidade linguística da criança.
Independente da turma, é importante abrir a bíblia, manusear e ler com as CIAs. Podemos usar estratégias como plaquinhas para resposta, ilustrações. É preciso acreditar que todas as crianças são capazes.
Alguns conceitos
A irmã Danielle Manera, psicopedagoga no Rio de Janeiro, iniciou a sua aula mencionando um pouco da questão teórica, que possibilita a realização de adaptações conforme as necessidades de cada caso.
“O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades de interação social, comunicação e comportamentos repetitivos e restritos.” É chamado de espectro devido aos níveis, que podem variar de 1 a 3. do mais leve ao mais severo.
A criança com Deficiência Intelectual (DI) “é um transtorno do desenvolvimento que atinge cerca de 3 a 4% das crianças e a sua principal característica é a presença de um nível cognitivo muito abaixo do esperado.” A criança com DI apresenta dificuldade de adaptação em diferentes ambientes.
A Síndrome de Down (T-21) não é uma doença, mas sim um atraso intelectual.
Altas habilidades – superdotação (AH/SD) “caracteriza-se pela elevada potencialidade de aptidões, talentos e habilidades, evidenciada no alto desempenho nas diversas áreas das atividades humanas, incluindo as acadêmicas, demonstradas desde a infância.”
A irmã Gilmara Orico também trouxe algumas questões teóricas, como o Distúrbio do Processamento Auditivo Central (DPAC) que é a dificuldade de armazenar aquilo que ela escuta no todo; as palavras e frases chegam picadas havendo a necessidade repetir o ensino.
O Transtorno Opositor Desafiador (TOD), caracterizado por teimosia exagerada, resistência com as regras combinadas, falta de paciência. A criança com TOD discute e desafia, recusando-se a obedecer, culpa os outros pelos seus erros, frequentemente mostra-se enraivecido e ressentido.
A deficiência física é a alteração parcial ou total de partes do corpo que compromete a pessoa no desempenho de funções. As deficiências físicas motoras são todas as condições que fazem a pessoa ter dificuldades ou impeçam de realizar algum movimento.
A paralisia Cerebral (PC) é caracterizada por alterações neurológicas permanentes que afetam o desenvolvimento motor e cognitivo, envolvendo o movimento e a postura do corpo.
Esses conhecimentos são importantes para que os pais e professoras possam adaptar os ensinos de acordo com a necessidade.
Encerramento
Na última aula o pastor Lucimar Bízio leu o texto da Palavra de Deus que está em Atos 4:20, que diz:
“Pois nós não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido”.
A aula foi destinada a experiências e dúvidas.
Também foram apresentados a todos os seminaristas, os integrantes do grupo de acessibilidade da Região.
Aulas do Encontro sobre Acessibilidade:
Aula do Encontro sobre Acessibilidade em Libras:
E-mail para perguntas:
acessibilidade@presbiterio.org.br
Link dos sites mencionados nas aulas:
www.ciasmaranata.org.br
CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM DEFICIÊNCIA
https://institutoicm.com.br/category/acessibilidade/